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O relançamento da EU: segurança, migrações e a união económica e monetária

Sessão de continuidade “A União Europeia depois do Brexit e de Trump”

A sessão do Prof. Vitor Pou (VP), no Porto, teve uma presença muito significativa de Alumni do Norte, que ficaram agradavelmente surpreendidos com a mensagem otimista que o Prof. Pou conseguiu transmitir. A sessão prolongou-se bastante além do previsto como resultado das várias questões que os participantes levantaram. A troca de impressões, aberta, franca e repleta de pontos de vista diferentes apresentados com respeito, foi muito enriquecedora e gratificante para todos os presentes.

O mesmo espírito de reflexão, ponderação e diálogo também foi vivido no debate em Lisboa, entre os Alumni comprometidos com o futuro da sociedade e dos seus negócios.

Numa entrevista, Victor Pou sintetizou as mensagens mais significativas, publicadas no seu recente livro “?Hacia la deconstrucción de la Unión Europea?”.

Com as contingências internas e externas vividas em 2016, devemos falar na “reconstrução” ou na “desconstrução” da União Europeia?
VP: “Neste começo do ano de 2017, pode falar-se tanto de “desconstrução” como de “relançamento” da UE. Pode-se falar de “desconstrução”, porque em finais de março, concretamente a 29 de março, já se iniciaram as negociações para a saída do Reino Unido da UE, cuja duração negocial se estima vir a durar dois anos. Mas também é verdade que quatro dias antes, a 25 de março, o Conselho Europeu reuniu-se em Roma para celebrar o 60.º aniversário do Tratado de Roma, texto fundador da Comunidade Económica Europeia (CEE), e decidiu por unanimidade reforçar e relançar a UE no futuro imediato. Perspetiva-se um novo desenho de uma UE com uma arquitetura institucional de geometria variável e diferentes velocidades, centrada a curto prazo em três prioridades: segurança (tanto externa como interna), migrações e união económica e monetária.”

O euro como moeda é um trunfo da União ou uma aposta comunitária com prazo de validade?
VP: “O euro é um ativo fundamental da UE e continuará a sê-lo.  Os países da zona euro estarão no núcleo duro do futuro desenho institucional da UE. Os países menos envolvidos ficarão em círculos externos com menores níveis de compromisso integrador, embora venham a ter sempre a porta aberta para avançar, ao ritmo que desejarem, para alcançar as metas dos membros do núcleo duro.”

A Europa está a conseguir (re)integrar os refugiados com sucesso?    
VP: “A UE não tem uma política própria para receber os refugiados. Pretende-se, como disse anteriormente, progredir rapidamente para tê-la. É um desafio maior que deverá enfrentar. Só então a Europa será capaz de dar uma resposta adequada às migrações e superar a etapa atual de apalpadelas, improvisações e acordos temporários como o atualmente existente entre a UE e a Turquia.”

A crise na União Europeia (também) é uma crise de gestão e liderança?
VP: “A UE tem vindo a conhecer nos últimos tempos um verdadeiro encadeamento de crises, entre as quais se destaca a crise do euro, iniciada em 2010, que em si mesma é uma “policrise”, pois é, além de monetária, uma crise institucional, de gestão, de narrativa, de liderança e de legitimidade. Estas crises têm de ser ultrapassadas para a UE superar os populismos e recuperar o afeto dos cidadãos.”

Deve a Europa temer Trump?
VP: “A Europa deve acompanhar muito de perto as ações do novo presidente dos Estados Unidos, caraterizadas pela sua imprevisibilidade. Deve ter-se em conta que Trump classificou a UE de “projeto fracassado” e a NATO de organização “obsoleta”. Em apenas 100 dias da sua presidência e em tão pouco tempo, o novo presidente norte-americano alterou as suas opiniões em numerosas matérias. Os Estados Unidos são um aliado chave da Europa e devem continuar a sê-lo no futuro.”

Como resgatar a “alma da UE”?
VP: “Jacques Delors sempre dizia que o “mercado interno europeu”, uma das suas grandes realizações, não podia ser “a alma” da UE. A “alma” da UE são os seus valores fundadores, isto é, democracia, liberdades fundamentais, império da lei, unidade na diversidade, modelo social integrador, respeito pelas minorias, tolerância, igualdade de género, etc. O relançamento da UE de que falei antes, deve ser encaminhado para  uma refundação baseada precisamente nestes valores fundadores.”