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Uma nova forma de pensar e consumir energia

Lançamento do programa AMEG – Advanced Management in Energy

As alterações climatéricas, a responsabilidade ambiental e a sustentabilidade dos recursos são questões com um forte impacto no setor energético. O Prof. Juan Luis Cardenete, Senior Lecturer of Strategic Management do IESE e convidado da AESE para uma sessão alusiva ao tema, detalha o porquê.

Quais as razões principais para pensar a energia de uma forma diferente?
JLC: “Durante o ano de 2016, houve acontecimentos muito relevantes. O primeiro foi ter entrado em vigor o acordo de peritos de 2015 e que foi ratificado, o que fez com que os compromissos internacionais adquiridos por praticamente todos os países do mundo, obrigem a que se altere totalmente a forma de consumir energia.
O segundo é que o leilão da eletricidade renovável, concretamente, a fotovoltaica e a eólica, fez reduzir extraordinariamente o seu preço. São agora extremamente competitivas e não há dúvida de que o futuro da geração primária da eletricidade (e insisto na palavra “primária”) será renovável. Não só pela limpeza ambiental desta forma de energia, como sobretudo pela sua competitividade. O debate já não é se se deve dizer sim ou não à energia renovável. O debate para a eletricidade neste sentido terminou. O problema agora é como integrar uma eletricidade que seja previsível, sabermos não quanto se vai produzir no dia seguinte de energia eólica e de energia fotovoltaica, mas como se vai integrá-las num sistema elétrico que hoje é resiliente. Não há dúvidas sobre a firmeza e a flexibilidade dos sistemas elétricos dos países desenvolvidos, como é o caso de Portugal.
Há um terceiro elemento muito relevante, que é tudo isto ter de ser feito numa exuberância de preços dos hidrocarbonetos fósseis. Há abundância energética, os preços do petróleo são baixos e vai-se ter de caminhar para um modelo descarbonizado. A verdade é que mesmo que a eletricidade fosse 100 % renovável, 70 % da emissão dos gases com efeito de estufa, ficaria intacta. A maior causa do efeito de estufa já não é a eletricidade. São os transportes, é o aquecimento e o arrefecimento dos edifícios, são outras razões diversas.
A descarbonização do sistema elétrico encontra-se num grau avançado. Em 2016, na Península Ibérica, mais de 68 % das empresa de eletricidade já não emitiam, devido às renováveis, às grandes hidráulicas e no caso ibérico, devido à contribuição do nuclear de Espanha. Há um mix que foi feito sem causar gases com efeitos de estufa. O desafio é como descarbonizar as restantes atividades. E esse assunto é tão necessário, como desafiante.”

Qual o impacto, a curto e a longo prazos, da mobilidade elétrica?
JLC: “A descarbonização dos transportes é um assunto complexo. Hoje, a não ser os combustíveis líquidos, não sabemos bem como descarbonizar o transporte aéreo. Atualmente é muito difícil o modo de descarbonizar o transporte marítimo. A gasificação do transporte é uma maneira de descontaminar parcialmente, de reduzir as emissões, utilizando o gás como combustível de transição rumo a um futuro descarbonizado é uma das vias, mas não é a solução definitiva.
O transporte de mercadorias e de pessoas é extremamente desafiante. A eletrificação do transporte terrestre é uma esperança com fundamento, mas ainda não tem a maturidade tecnológica e a maturidade comercial de que necessitamos para a tornar viável.”

Será previsível um negócio lucrativo com fontes de energia renováveis? Pode adiantar-nos alguns exemplos paradigmáticos?
JLC: “A indústria energética será sempre constituída por empresas relevantes e haverá sempre negócio. Mas os modelos de negócio estão a mudar.
Se se pensar no sistema elétrico, as empresas são grandes empresas, verticalmente integradas, porque foi uma necessidade funcional do passado. Hoje, já não existe essa necessidade funcional do modelo de negócio do futuro. E, nesse sentido, as empresas verticalmente integradas podem até ser um estorvo para esse modelo de negócio futuro.
Um olhar profundo sobre o que isso significa, irá esclarecer por que é que os modelos de negócio estão a mudar e talvez para onde se dirigem no futuro.
Se falarmos das restantes empresas energéticas, mais ligadas aos hidrocarbonetos fósseis (petróleo e gás), também no upstream mudou o modelo de negócio. O aparecimento da tecnologia do fracking mudou completamente a estrutura de poder que tinha, por exemplo, a OPEP.
De facto, a importância de hidrocarbonetos tem a ver com o aparecimento de numerosas e não tão grandes empresas no upstream a competir contra as empresas agrupadas no mundo da OPEP.”

O que acha de a AESE oferecer um programa de gestão no setor da energia?
JLC: “A energia e o clima são dois assuntos muito candentes. Não podemos entender o que se passa, sem ter muito presente quanto vai mudar, quanto vai desafiar no futuro o binómio energia e clima.
Os compromissos internacionais contraídos pela maioria dos países do mundo, entre outros, Portugal, obriga a que se repense completamente o modo de consumir energia. E a energia é quase tudo.
Juntamente com o setor financeiro, são dois setores determinantes para o futuro do nosso negócio. Entender bem o que se passa, é muito relevante para os empresários e executivos de Portugal, clientes desta excelente Escola.”
 

A AESE lança um novo programa para executivos dirigido aos profissionais do Setor Energético, em que o funcionamento dos seus mercados e a gestão empresarial serão o ponto forte do AMEG. O Advanced Management in Energy decorre de 28 de setembro de 2017 a 11 de janeiro de 2018, em Lisboa.