A Crise Ecológica

Na sua mensagem de Ano Novo, subordinada ao lema «Se queres cultivar a paz, preserva a Criação», o Santo Padre vê a necessidade de «uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento» (nº 5). Já pelo capítulo dedicado ao «ambiente» na «Caritas in Veritate», sabemos o que entende por isso: centrar a ecologia no homem, visto que a Natureza se destina ao homem, e não a si própria. Se o homem é responsável por «cultivar e guardar» a Criação, é justamente porque esta se destina à preservação e ao desenvolvimento do homem. E, sem tal fim, não tem qualquer sentido.


Verifica-se frequentemente uma atitude curiosa em matéria ecológica: por um lado, a proibição de qualquer intervenção humana que perturbe a Natureza; e, por outro, a sua manipulação mais desenfreada. Há um ecologismo que se coloca mesmo em posição de antagonismo com o homem, vendo-o como o único ser perigoso para o ambiente; e um ecologismo de laboratório, em que o homem se considera no absoluto direito de perpetrar as mais perigosas e aberrantes experimentações contra-natura. Não há dúvida de que necessitamos de um «modelo» capaz de respeitar simultaneamente o homem e o seu ambiente. Sem uma orientação clara e correta, nem políticos nem empresários saberão o que fazer: ou ficarão enredados nas mil proibições dos «defensores» do ambiente, ou perplexos perante as mil aventuras laboratoriais.


Talvez o melhor caminho seja o de recordar que o homem também faz parte da Natureza. Simplesmente, é o único ser natural efetivamente capaz de a degradar, ou de aformoseá-la. Sendo o animal mais doentio, é, todavia, o mais poderoso. É isso o que quer dizer «um ser sagrado»: separado, diferente, especial, superior. E não há dúvida de que somos superiores, posto que podemos destruí-la.


Ora, se nos empenhamos tanto em conhecer a Natureza, os seus segredos, as suas leis, porque não nos debruçamos igualmente sobre este estranho ser, especial, superior, que ameaça os restantes, e que estará por força subordinado a leis superiores, muito especiais, diferentes? Porque o acusamos e chamamos à responsabilidade, e o não fazemos em relação a nenhum outro animal ou planta? E porque distinguimos a Natureza do homem, se este lhe pertence também?

 

Ouçamos com atenção a Igreja, «perita em humanidade».


 

Pe. Hugo de Azevedo