A Lição do Natal

O Natal? É a festa em que tudo correu mal! Sim, de facto, as coisas não podiam ter corrido pior! Primeiro porque, quando Maria e José já se teriam preparado para receber Jesus na sua casa de Nazaré, vêem-se subitamente obrigados a deixar tudo e ir, a passo apressado, para Belém, de onde era oriunda a família de José, que era remoto descendente do Rei David. Nessa cidade, onde era de esperar que algum parente os recebesse, senão por razões de parentesco, pelo menos pelo estado em que se encontrava Nossa Senhora, todas as portas se lhes fecharam. Pior ainda: à conta do recenseamento, eram tantos os forasteiros que a hospedaria local ficou sobrelotada e a Sagrada Família teve que se abrigar num velho estábulo onde, segundo a tradição, viria a nascer Jesus.

Era de supor que, com o nascimento de Cristo, terminassem as contrariedades, mas não foi o caso. Depois da homenagem dos pastores das redondezas e dos magos vindos do Oriente, um sonho revela a José que Herodes procura o recém-nascido Rei dos Judeus para o matar. Sobressaltado, levanta-se de imediato, pega em Maria e em Jesus e fogem precipitadamente para o Egipto. Uma terra estranha, onde se falava uma língua que não conheciam, onde não tinham familiares nem amigos, onde não tinham casa, nem trabalho e onde o povo judeu não tinha deixado boas recordações.

Para quem não tiver fé, talvez estes factos pareçam confirmar a sua descrença. Como acreditar num Deus que nem sequer protege o seu recém-nascido Filho?! Que Deus é este que, em vez de eliminar a vida de um tirano, obriga um jovem casal a expatriar-se?! Como é que Deus, podendo resguardar a remediada comodidade do lar de Nazaré, não só não o faz como força Maria a abrigar-se num inóspito estábulo, para aí dar à luz o seu divino filho?!

Para nós, crentes, esta é a mais bonita história de amor de todos os tempos. Do amor de Deus por nós, porque “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho unigénito, para que todo aquele que crê n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele” (Jo 3, 16-17).

Mas é também uma lição de amor a Deus, no carinho conjugal de Maria e José e na ternura de ambos por seu filho, Jesus. Só o egoísmo é desculpa para o desamor, porque foi nas mais difíceis circunstâncias que o Natal aconteceu. Também agora, quaisquer que sejam as nossas vidas e famílias, é aí que deve acontecer o Natal, porque é no amor aos outros, sobretudo ao nosso próximo mais próximo, que Deus quer, também agora, ser adorado!
Santo Natal!


Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada