Aprender a amar

Três dias consecutivos do mês de Setembro dão o mote a este primeiro mês do ano lectivo: a 13, o aniversário da penúltima aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria; a 14, a festa da exaltação da Santa Cruz; e a 15, a memória litúrgica de Nossa Senhora das Dores. De algum modo, são três celebrações centradas no mistério da cruz, sinal por excelência da fé cristã.

Na primeira aparição, Maria fez uma proposta de uma enorme exigência aos pastorinhos: “Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?”. Ante a resposta afirmativa, Nossa Senhora disse depois: “Ides, pois, ter muito que sofrer …”.

É sabido que a Lúcia, bem como os seus primos, os agora santos Francisco e Jacinta, tomaram muito a sério esse convite. Nas suas Memórias, a Irmã Lúcia conta que os três usavam uma corda atada à cintura: “Seja pela grossura e aspereza da corda, seja porque às vezes a apertássemos demasiado, este instrumento fazia-nos por vezes sofrer horrivelmente”. Na aparição de Setembro, a Mãe de Jesus atenuou o rigor dessa penitência, mas não ao ponto de a suprimir: “Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia”.

Os adultos que não alcançaram a maturidade que seria de esperar, se calhar foram vítimas de uma educação tão benevolente que, na realidade, os não ajudou a forjar uma personalidade equilibrada. Onde falta esse substrato, não é possível assentar os alicerces das virtudes cardeais, sem os quais não se pode construir uma verdadeira vida cristã. A formação e educação cristã, a receber na família, na catequese e na escola, não pode ser meramente intelectual, pelo ensino dos conteúdos da fé e da moral cristã; ou piedosa, pelo exercício individual, familiar e comunitário da oração e de outras devoções; mas também prática, ou seja, pela vivência das virtudes humanas.

Os pastorinhos foram favorecidos com graças especiais, em virtude das quais foram capazes de grandes sacrifícios. Não seria prudente, nem razoável, pedir às crianças tão duras penitências, mas também os mais pequenos devem aprender a contrariar a sua vontade, a renunciar aos caprichos, a obedecer aos pais e professores, a respeitar os mais velhos, a dizer sempre a verdade, a cumprir com as suas obrigações cristãs, familiares e escolares.

Em muito pouco tempo, Nossa Senhora fez da caprichosa Jacinta e do pouco piedoso Francisco dois grandes santos, que hoje a Igreja muito justamente venera sobre os altares. Neste começo de um novo ano lectivo, queira Deus que muitas outras mães e pais proporcionem também aos seus filhos uma rija educação cristã. Como ensina a sabedoria popular, é de pequenino que se torce o pepino!


Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada