Santos, precisam-se!

Eles abundam na lista telefónica, mas escasseiam na toponímia e na estatuária das nossas cidades. Até nas igrejas católicas, os santos estão cada vez mais ausentes. Mas, como todos os anos se recorda no dia primeiro de Novembro, eles são necessários, sobretudo agora que, à falta de verdadeiros heróis, proliferam os falsos ídolos.

Por louvável iniciativa de um grupo de cidadãos, a cidade de Lisboa conta agora com uma estátua de D. Nuno Álvares Pereira, que em religião se chamou Frei Nuno de Santa Maria. O Santo Condestável, representado de joelhos diante da sua espada, alçada como se fosse uma cruz, está agora presente na iconografia olisiponense, depois de um longo processo, não isento de vicissitudes. Muitos foram os projectos, mas muitos também os obstáculos a vencer, porque é antiga a pretensão laicista de confinar a fé ao interior dos templos e à intimidade das consciências.

Também na Igreja a devoção aos santos parece estar em crise. Basta entrar numa igreja católica, de recente construção, para constatar a chamativa ausência de imagens de santos, tão abundantes, pelo contrário, nos templos erigidos nos séculos passados, também por reacção à supressão deste culto pelos protestantes, especialmente avessos a tais devoções. É salutar que, graças à reforma litúrgica conciliar, se dê agora mais ênfase à centralidade de Cristo, bem como à mediação de Maria. Mas o culto dos santos não diverge desta orientação, antes a cumpre e exemplifica, como acontece em São Nuno de Santa Maria: mais do que generalíssimo dos exércitos reais, foi humilde soldado de Cristo, sob o pendão de Nossa Senhora da Conceição. A bem-aventurada vida do Santo Condestável é um exemplo de imensa actualidade e pertinência para qualquer cristão que tenha também ânsias de grandeza no serviço de Deus e ao seu país.

As pessoas de idade gostam de se rodear das fotografias dos seus familiares e amigos já desaparecidos, mas esta tradição não é exclusiva dos mais velhos, porque também os jovens procuram referências e, por isso, forram as paredes dos seus quartos com os ‘posters’ dos famosos de que são fãs. Se os cristãos mais novos não conhecerem as vidas dos santos que a Igreja elevou aos altares, idolatrizarão os actores e cantores seus preferidos, ou os desportistas da sua eleição, cujas vidas, nem sempre exemplares, procurarão imitar, em prejuízo da sua fé.

Urge uma nova catequese da santidade cristã, pela divulgação – também através das novas tecnologias – das actualíssimas vidas dos santos: não há aventuras mais apaixonantes, nem histórias mais maravilhosas! Também pela presença das suas imagens nas nossas igrejas, nas ruas das nossas cidades, nas nossas casas e também – porque não?! – nos nossos locais de trabalho.    


Pe. Gonçalo Portocarrero de Almada