Soluções e remédios

A festa de Nossa Senhora da Assunção ilumina o mês de Agosto com uma aura espiritual que nos convida a elevar os olhos para além do firmamento, como se fosse um imenso véu azul, à noite polvilhado de diamantes, digno da realeza de Maria, subida ao Céu em corpo e alma. 
Erguer os olhos ao céu é um gesto muito humano, universal, de contemplação religiosa. O próprio Jesus Cristo, Deus e Homem, o fez muitas vezes, como o relatam os Evangelhos. O firmamento altíssimo, puríssimo, belíssimo, tão atraente como inacessível, é o melhor símbolo natural do Criador – que está para além de tudo o que a vista alcança, mas a que o coração aspira. Quem olha para o céu e nunca se comove, não é homem; é bicho. E se pretende banalizá-lo, contabilizando estrelas, buracos negros e curiosíssimas partículas, ainda mais nos faz admirá-lo pela sua riqueza e dimensão incomensuráveis.
Mas este é uma das pechas do nosso tempo, a que chamava «infância da técnica» o «presencista» Carlos Queiroz na sua «Epístola aos Vindouros» (Ática, 1989):
«Pensai que foi grotesco o nosso orgulho;
Que não fomos adultos, mas crianças
Precoces, monstruosamente cônscias
De já não serem cândidas.
E que tanto nos demos ao concreto,
Ao visível, ao útil, ao efémero,
Que ficámos atónitos e estúpidos –
Barbaramente supersticiosos
Em face dos mistérios insondáveis
Deste mundo e do outro».
E a que vem isto, num Agosto de crise? Se o mais urgente é o emprego!... Talvez seja o mais urgente, mas não o mais importante. O mais importante é irmos para o Céu. 
Consolações místicas, agora? Exactamente: consolações místicas. É que as outras não são satisfatórias nem práticas, como diria Chesterton. São meros adiamentos da autêntica felicidade para a qual estamos feitos. Senão, teria razão Pessoa: o homem não passaria de «um cadáver adiado que procria». Por adiamentos e mais adiamentos (financeiros) veio a crise: muitos a gozar, poucos a produzir… e agora quase ninguém a pagar. Foi no que deu a satisfação do dinheiro.
Oxalá consigamos sair dela. Oxalá as sucessivas medidas «resultem»… Mas, para isso, e sempre, havemos de cultivar as virtudes próprias de quem sabe o que é urgente, mas não esquece o importante. Só olhando para além do tempo sabemos o que o tempo vale e para que serve. Tempo não é dinheiro; é muito mais; é caminho de crescimento interior, de amor, e nossa riqueza permanente, igual para todos. 
Talvez um parágrafo de Frei António das Chagas o diga melhor: «A queda, que para o vidro é ruína, para a pedra é descanso e sossego; os fracos como o vidro quebram, em caindo perdem-se, quebrando-se-lhes o coração, o ânimo e a confiança; e maior dano lhes faz a sua fragilidade que a sua queda. A pedra, como é forte, na sua queda descansa; e quanto é maior o baixo a que se despenhou, maior segurança adquiriu, porque no mesmo precipício achou fundamento para maior fortaleza» (Cartas Espirituais, II, 24).

Talvez uma das causas das perturbações sociais seja a procura de soluções para os problemas de todo o género e espécie que se vão sucedendo. Porque os problemas sociais, tal como os da saúde individual, não têm solução; só podem ter remédios. A sociedade, como o indivíduo, nunca atingirá um equilíbrio nem um desenvolvimento estáveis. Nunca se conseguirá perfeita justiça, contínuo crescimento económico, pacífico entendimento nacional e internacional, definitivo sistema de educação, regime político ao gosto de todos, organização administrativa plenamente satisfatória, etc. Todo aquele e qualquer ideologia, que prometam «soluções» radicais, são tão ridículos como o feirante ou o astrólogo que anunciem a pomada salvadora ou a energia astral que resolve as questões de amor, de dinheiro e de ciática.

Só pode haver «remédios», «medidas», que abrandem a pobreza, elevem o nível de vida, simplifiquem a burocracia, suavizem conflitos, deem melhor acesso aos hospitais e às escolas, mais despacho aos tribunais, etc. Mas contando sempre com novos problemas, às vezes fruto dessas «boas» medidas, que o seriam então, mas de cujas consequências ninguém se precatava… Soluções que eliminem de vez as «questões sociais» não existem.


Oferecer tais soluções é mentir. Esperar essas soluções é ingenuidade. Exigir soluções definitivas é demagogia. Mas o sonho do paraíso terrestre exaspera-nos, e não desistimos, geração após geração, de tentar descobrir a pedra filosofal que tudo resolva. Só a sabedoria egípcia a descobriu: «Oxalá pereça o homem, volte o silêncio e 
desapareça para sempre o furor». Curiosamente, tem sido esta a «solução» ocidental, tentando por todos os meios extinguir a família... Mas a isso não pode chamar-se «solução»; apenas «dissolução».


Como dizia ao princípio, esta fúria «solucionadora» ainda exacerba mais as dificuldades que temos. Pois qualquer medida que se tome enferma, por força, de limitações, que não estamos dispostos a reconhecer. E o homem, além de limitado, é um ser doente, desequilibrado, «pronus ad peccatum» - inclinado ao mal e ao disparate -, como diz a teologia. Incurável, no sentido de que a sua digníssima racionalidade não o torna necessariamente razoável, e a sua digníssima liberdade sofrerá sempre a pressão de paixões difíceis de controlar. É este homem e esta sociedade doentes que é preciso ter em conta. 


Partir do princípio de que tudo tem solução, se houver «vontade política», é enganar-nos a nós mesmos. Como os maus doentes não se deixam tratar, e toda a melhoria lhes parece pouca, atribuindo-a à falta de «vontade médica», assim procedemos nós com frequência na vida familiar, social e internacional. E esta impaciência significa duas coisas: uma forma de preguiça - fuga do trabalho continuado - e uma expressão de desesperança: não ver nada além do dinheiro.

 


Pe. Hugo de Azevedo