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A obrigação de pôr os talentos a render

Ordem de Instrução Pública atribuída pela fundação da AESE

O Prof. José Luiz Carvalho Cardoso, fundador da AESE Business School, recebeu a Comenda da Ordem da Instrução Pública, no dia 18 de fevereiro de 2016, atribuída pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Numa entrevista, o homenageado conta como deu início à AESE, contornou os obstáculos e encontrou as soluções para este empreendimento.

Quais os pensamentos e emoções que sentiu ao receber  a notícia de que seria condecorado com a Ordem de Instrução Pública?
JLCC: Uma notícia destas não se recebe sem um grande sobressalto.
Com efeito, é algo que não me passaria pela cabeça que pudesse vir a acontecer, porque na verdade não fiz nada para além do que pensei que poderia ser uma modesta contribuição para motivar algumas pessoas amigas a colaborarem numa iniciativa de formação de empresários, numa altura (1977/1980), em que a economia estava praticamente toda estatizada.
Curiosamente, a minha reação, ao receber a notícia da condecoração, foi lembrar-me dos meus Pais, de como eles ficariam contentes. Nós éramos seis irmãos, eu era o quarto. Eram tempos muito difíceis, com o racionamento dos principais géneros alimentícios e outras dificuldades provocadas pela guerra de 1939-1945. Esta situação ajudou-me a crescer num ambiente que me deu capacidade de resistência às dificuldades.

Como surgiu a ideia arrojada de criar uma escola de negócios de topo, em Portugal no pós-25 de Abril?
JLCC: Os factos que antecederam o nascimento da AESE, em 3 de outubro de 1980, trazem lembranças que, por um efeito de contágio, se revelam extremamente ricas pelos bons exemplos de vontades que se aglutinaram, em tempos difíceis, para lançar uma iniciativa que, analisando friamente, podia não ter grandes hipóteses de sobrevivência.
Eu andava bastante preocupado com o evoluir da situação socioeconómica, naqueles anos pós-25 de abril. O poder dominante não parecia de molde a esperar-se um futuro tranquilo e que permitisse antecipar uma evolução positiva da situação socioeconómica, em tempo útil. Pensava, por isso, que seria imperioso fazer qualquer coisa que pudesse vir a contribuir no futuro para a recuperação da economia, como eu acreditava que teria inevitavelmente de vir a acontecer, embora não soubesse como.

Quais os principais obstáculos que encontrou?
JLCC: Falando um dia com um amigo, sugeri-lhe que era uma boa altura para se fazer algo que não tendo resultados imediatos, pudesse ser de grande utilidade para o futuro, que era promover atividades destinadas à formação de empresários e outros agentes da nossa vida económica.
Esse amigo falou-me da Universidade de Navarra, à qual pertencia o IESE, que tinha como finalidade a formação de dirigentes de empresa. Pensei que era exatamente isso que me interessava. Mas logo me surgiu o grande obstáculo. A Universidade de Navarra era do Opus Dei, assim como o IESE, naturalmente. E eu também. Ora isto impedia, naquela época, que esta ideia fizesse o seu caminho, dado o desconhecimento que havia sobre o Opus Dei.
Mas há sempre um momento de sorte e é preciso saber aproveitá-lo.
Estava convicto de que esse apoio poderia estar garantido se conseguisse ultrapassar a dificuldade de conseguir que fosse bem aceite uma inciativa para formação de agentes económicos com “know how” de uma instituição ligada à Prelatura. Interessei nesta ideia quatro amigos “insuspeitos” de qualquer ligação ao Opus Dei, que aderiram à ideia e se prestaram a colaborar no lançamento da iniciativa e nos convites para que responsáveis por instituições de primeira grandeza no nosso mundo económico e financeiro, se dispusessem a participar num programa de formação, que teria a mesma duração e o mesmo peso de trabalho exigente que tem o PADE, o PDE e os restantes programas de formação que a AESE disponibiliza.
Deste modo, após cerca de 2 anos e meio de ter surgido a ideia inicial, a AESE constituiu-se e, no mês seguinte, iniciou-se o 1.º PADE, com um sucesso que muito ajudou ao crescente interesse que a AESE foi despertando. Desse magnífico grupo de amigos que foram fundamentais para o lançamento da AESE, dois infelizmente já não estão entre nós - o Dr. Artur Luís Alves Conde e o Dr. António dos Santos Labisa -, enquanto o Dr. António Escaja Gonçalves e o Eng. Emílio Rosa continuam a interessar-se pela instituição a que deram tão relevante apoio.
Por outro lado, enquanto eu dava a cara e ia, naturalmente, acompanhando os primeiros passos da AESE, já o Eng. Eugénio Viassa Monteiro se disponibilizava para trabalhar a tempo inteiro na AESE e o muito jovem Eng. José Ramalho Fontes, que apesar de estar a residir no Porto e por isso não estar fisicamente presente, participava já na vida da AESE, com a mesma dedicação e o mesmo entusiasmo com que o faz hoje.

Quais os contributos que considera terem sido determinantes na altura para que o sonho se materializasse?  
JLCC: Em primeiro lugar, as várias conversas que tive com os engenheiros José Ramalho Fontes e Eugénio Viassa Monteiro, para perfilarmos melhor o projeto. Depois, na sequência de um encontro nosso com o Prof. Pedro Nueno, do IESE, viu-se que seria necessário formalizarmos um pedido de colaboração com o IESE, através do Grão Chanceler da Universidade de Navarra, coisa que fizemos imediatamente. E é muito honroso, para nós, saber que foi D. Álvaro del Portillo, atual Beato Álvaro, que acreditou neste pequeno grupo e abriu a porta para que o IESE aceitasse a nossa solicitação de arrancar com um programa PADE com o objetivo de constituirmos uma nova escola de negócios.

A clareza, a franqueza com que se partiu para esta aventura foi condição essencial para que nunca se tivesse verificado qualquer problema. Julgo ser de realçar este aspeto porque, infelizmente, quantas vezes pessoas que comungam dos mesmos ideais não são capazes de se compreenderem nas suas naturais diferenças, para levarem a cabo iniciativas, em si mesmas, extremamente válidas. O suporte administrativo era simples. A sede era na R. Rodrigo da Fonseca, numa empresa de que eu era Administrador. Como colaboradora única e tendo prestado à AESE serviços fundamentais para o bom arranque da atividade, tivemos a D. Isabel Girou, que era a Secretária do Conselho de Administração. E como motor da incipiente máquina da AESE já estava atuante o Eng. Viassa Monteiro. Embora não dispuséssemos de nenhum capital inicial a não ser o que viesse a resultar do pagamento que os participantes do 1º PADE fizessem, tomámos a decisão de que tendo que alugar salas em algum estabelecimento hoteleiro, por não dispormos de instalações próprias, só deveríamos trabalhar em hotéis de cinco estrelas, pelo que imediatamente contactámos o Hotel Ritz, por ser o que dispunha de salas que considerávamos mais adequadas. No entanto, como o 1.º PADE se iria iniciar um mês após a fundação da AESE, não foi possível reservar salas para todos os dias deste primeiro PADE. Como alternativa, escolhemos o Hotel Altis. A partir do 2.º PADE e durante dezassete anos, sempre trabalhámos no Hotel Ritz, onde também realizámos as primeiras Assembleias Gerais de Alumni. Não posso deixar de referir um Professor do IESE, que assegurou a direção de sucessivos PADE’s, enquanto o Eng. Viassa Monteiro se foi preparando para assegurar por si próprio essas funções, com a eficiência que é uma marca da sua atividade em tudo o que faz. Trata-se do Prof. José Luis Lucas, saudosamente recordado por todos quantos tiveram o privilégio de o conhecer ao longo dos muitos anos em que colaborou com a AESE e que sabemos que continua a sua muito meritória atividade de professor de ciências de empresa com um notável acervo de obras publicadas. Os milhares de participantes que têm frequentado as iniciativas da AESE são a prova de que o trabalho desenvolvido a partir do impulso proporcionado pela Universidade de Navarra, foi correspondido e deu magníficos frutos, que começaram já a reproduzir-se em Angola. Como estão longe os tempos em que todas as semanas tinha que se transportar para o hotel todo o material necessário para os Programas, enquanto não surgiu a magnífica sede de que hoje usufruímos. A inauguração da sede é um ponto alto, merecedor de especial referência. Para isso, contribuiu um numeroso grupo de pessoas, das quais se destacam o pessoal técnico, não esquecendo um grupo de jovens estudantes que, praticamente desde o início da AESE, prestaram o seu valioso contributo. Como seu representante é justo destacar o Dr. Agostinho Abrunhosa, que tendo crescido e atingido a idade adulta na AESE, é hoje, com todo o mérito, o seu Secretário-Geral. Por último, é de toda a justiça destacar ainda duas pessoas que tão valiosa contribuição deram para que se tornasse realidade esse objetivo tão ansiado. Um já não está entre nós, o Eng. Carlos Parreira, que sempre recordaremos com muita amizade e reconhecimento. O outro continua conosco e pedimos a Deus que seja por muitos anos, dado o excecional brilho e valia de cada uma das suas intervenções. Falo do Dr. Raul Diniz.

Sente ter cumprido a sua missão?
Decorridos todos estes anos, vale a pena pensar o como e o porquê desta maravilhosa aventura. Esta conclusão tem-me levado muitas vezes a refletir sobre o que Deus terá em mente ao chamar-nos à criação. Cada um tem um capital de qualidades, que tem a obrigação de desenvolver, por muito que haja a tentação, por falta de humildade, de dizer que se não tem capacidade para fazer isto ou aquilo.
 
O que fica ainda por fazer?
JLCC: Tudo aquilo que irá permitir à AESE continuar a cumprir a sua missão, procurando antecipar-se e responder às exigências de um mercado em mutação contínua.
Neste aspeto, podemos estar serenamente confiantes. Estive 22 anos como Presidente da Direção, seguindo-se o Dr. Raul Diniz, que se manteve 12 anos à frente da Direção, tendo-lhe sucedido o Eng. José Ramalho Fontes que, na atual composição da Direção, tem a Eng.ª Maria de Fátima Carioca como Dean da instituição. Podemos estar tranquilos. A AESE está em boas mãos.


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