José Barros

No início do verão, o Diretor do meu Hospital estendeu-me uma monografia, acompanhada de uma expressão do tipo “Pensa nisto e diz-me alguma coisa”. Andava por esses dias atarefado com a edição da revista “Sinapse”, comemorativa do centenário do nascimento de Corino de Andrade e com outras iniciativas relacionadas, para além de uma cascata de afazeres profissionais e pessoais. A monografia acabaria esquecida entre papéis, provas gráficas e revistas. Reencontrei-a algum tempo depois. Era o programa promocional do V PADIS. Ensaiei um modo de escapar a mais uma anunciada carga de trabalhos, argumentando que já tinha a pós-graduação e a competência em gestão de serviços de saúde pela Ordem dos Médicos. O Dr. Sollari Allegro retorquiu que se tratava de um programa de outra natureza, assente em conceitos e metodologias diferentes do comum. Garantiu que, se me inscrevesse, não me arrependeria.

 

Acabei por enviar o curriculum vitae, embora sem excessivo entusiasmo. Durante a entrevista de admissão, percebi que se trataria de uma experiência realmente nova, provavelmente marcada por excessos de disciplina, rigores e trabalho. Ainda assim, arrisquei.

 

A revelação da turma foi uma boa surpresa, pela qualidade e heterogeneidade: cidadãos nascidos em quatro décadas sucessivas, de formações académicas e profissões diferentes, de ideias políticas e económicas distintas, de sensibilidades filosóficas e religiosas variadas, servidores públicos ou empreendedores privados, prolixos ou assertivos, com a vida inteiramente dedicada à saúde ou com múltiplas experiências em outras atividades humanas. Destoou apenas o caráter minoritário da representação feminina, embora bem compensado pela sua qualidade.

 

O Método do Caso, bem ancorado por algumas conferências, revelou-se motivador e promoveu interações produtivas nos grupos e em plenário, coroadas de algumas excelentes sínteses teóricas.

 

A organização foi eficiente e profissional, implementando na medida justa a disciplina prometida na entrevista inicial. O corpo docente e os conferencistas permitiram aulas de bom nível pedagógico, científico e mesmo lúdico.

 

O V PADIS permitiu-nos olhares novos e serenos sobre saúde, sociedades e civilizações, neste início de milénio. Foi bom conhecer ou vislumbrar alternativas consistentes a modas, superficialidades e desumanidades próprias de pensamentos económicos esmagadores, hoje em dia tão populares. Saímos do V PADIS mais seguros de que o rigor e a competição podem servir o desenvolvimento humano e a felicidade dos cidadãos, e que modernidade na economia pode e deve correr em simbiose com valores humanos perenes.

 

 

José Barros

Assistente Graduado de Neurologia | Hospital Geral de Stº António